In between days

“Why won’t you ever know…

18

de

outubro

Congelado.

Alguma coisa estava estranha. Pensando bem, todas as coisas eram estranhas ao acordar. "Pensando bem" era até força de expressão - quem é que consegue "pensar bem" assim que abre os olhos? (Será que a gente acorda antes de abrir os olhos?). Depois que passamos um tempo pensando absurdos sem saber (por que os sonhos são tão criativos?), os pensamentos "normais" vão chegando ainda meio confusos, um quer passar na frente do outro: o que está na frente, está com preguiça e fica atravessado no caminho, o que vem de trás, tropeça e se desmonta inteiro e a mente fica tentando recolher os pedaços… (Olha quantos pedaços espalhados aqui!). Mas ele acordou e alguma coisa estava estranha, e não era só a claridade do quarto, o barulho da rua, a falta de noção da hora e os pensamentos preguiçosos ou aflitos. A cama estava flutuando num quarto cheio d’água. Ele estava inconsciente, meio dormindo. A água é morna até que você descubra o quanto é profunda.

- Eu não estava feliz, Eileen, para mim foi uma queda….
- Esse tempo vai passar.

Ele perambulava em sua própria terra, estava sofrendo, estava estourando. Ele podia ver a dor nos olhos daquela pequena criança. Tudo estava mudando e ele não sabia porque. Era tão pouco tempo, ele queria que ela tentasse entender que ele estava tentando fazer um movimento só para continuar no jogo. Ele tentava ficar acordado e lembrar seu nome. Mas Eileen estava mudando e ela não sentia o mesmo. Ele se foi dali, logo iria desaparecer, sumindo em uma luz bonita, porque tudo estava mudando e Eileen não se sentia bem. Ele tinha andado por uma terra desabitada, conhecia o caminho como a palma da mão. Saiu de casa para caminhar, sentiu a terra sob os seus pés e sentou ao lado do rio e ele o completou. Para onde ele tinha ido? Ele estava ficando velho e precisava de alguém em quem confiar. Quando Eileen iria deixar ele entrar? Ele estava ficando cansado e precisava de algum lugar para começar. Encontrou uma árvore caída e sentiu seus ramos olhando para ele. Aquele era o lugar onde eles costumavam ficar. E se ele tivesse um minuto, porque eles não poderiam conversar ali mesmo? Onde só eles conheciam? Aquilo poderia ser o final de tudo, então porque não resolver logo? E foi isso o que aconteceu no dia anterior. "Ele", que se chamava Peter, quando deu por si tinha destruído tudo o que podia chamar de "sua vida", mas também tinha se livrado da dor de amar para sempre. E só notou isso quando percebeu porque alguma coisa estava estranha, na verdade notou o que estava estranho. Estranho era sentir o sangue de Eileen nas suas mãos e não poder mais ouvir sua respiração, e saber que era ele o responsável de tudo aquilo.

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